Fernando Pessoa, liberdade

FERNANDO PESSOA, LIBERDADE IN "CANCIONEIRO"

Ai que prazer 
 Não cumprir um dever, 
 Ter um livro para ler 
 E não fazer! 
 Ler é maçada, 
 Estudar é nada. 
 Sol doira 
 Sem literatura 
 O rio corre, bem ou mal, 
 Sem edição original. 
 E a brisa, essa, 
 De tão naturalmente matinal,
 Como o tempo não tem pressa... 

 Livros são papéis pintados com tinta. 
 Estudar é uma coisa em que está indistinta 
 A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

 Quanto é melhor, quanto há bruma, 
 Esperar por D.Sebastião,
 Quer venha ou não! 

 Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
 Mas o melhor do mundo são as crianças, 
 Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
 Só quando, em vez de criar, seca. 
 Mais que isto É Jesus Cristo, 
 Que não sabia nada de finanças 
 Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, Como Te Amo

Fernando Pessoa, Como Te Amo Poemas de Lança-Pessoa, Manuscrito (Junho/1902)


Como te amo? Não sei de quantos modos vários 
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos; 
Amo-te com o fervor dos meus sentidos gastos; 
Amo-te com o fervor dos meus preitos diários. 

É puro o meu amor, como os puros sacrários; 
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos; 
É grande como os mares altisonos e vastos; 
É suave como o odor de lírios solitários. 

Amor que rompe enfim os laços crus do Ser; 
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura; 
Um amor tão leal que aumenta no sofrer; 

Amor de tal feição que se na vida escura 
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver, 
Muito maior será na paz da sepultura! 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo, in 'Livro Sexto'


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento




Florbela Espanca, Amar não é Ser Egoísta

Florbela Espanca,Amar não é Ser Egoísta in "Correspondência (1920)



Tenho a certeza que tu és o meu maior amigo, o mais dedicado, o melhor de todos. 

Como eu o vi hoje bem! Como tu és leal e bom! 

Tão diferente de todos os outros homens que para te pagar o que no futuro hei-de 
dever-te, 
será pequena a minha vida inteira, mesmo que ela seja imensa. 

Os outros, amando as mulheres, são como os gatos que quando acariciam, é a eles que acariciam. 

Amar não é ser egoísta, 
é tantas, tantas vezes o sacrifício de nós próprios! 

A dedicação de todos os instantes, 
um interesse sem cálculo, uns cuidados que em pequeninas coisas 
se revelam e o pensamento 
constante de fazer a felicidade de quem se ama.